21 outubro 2009

Carlos Zéfiro, um mito do quadrinho erótico brasileiro (3)

O homem que se escondeu durante trinta anos por trás do pseudônimo de Carlos Zéfiro era Alcides Aguiar Caminha. Alcides era funcionário público (e compositor nas horas vagas, sendo co-autor de A Flor e o Espinho, de parceria com Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito). Ele desenhava os catecismos como um biscate para complementar o orçamento. Começou meio de brincadeira. Estimulado pelo amigo Hélio Brandão (também já falecido), dono de um sebo na Praça Tiradentes (Rio de Janeiro), Alcides produziu os primeiros catecismos, no final dos anos 50. Hélio se encarregava de providenciar a impressão e distribuição clandestinas dos catecismos, que chegaram a te mais de 2 mil edições diferentes (sendo cerca de 800 produzidas por Carlos Zéfiro).

O mistério sobre a identidade de Zéfiro durou muitos anos, pois o segredo foi muito bem guardado. O medo maior de Alcides era que, se fosse descoberto, poderia ser demitido por justa causa do serviço público. Somente em 1991 ele topou revelar sua identidade, e mesmo assim por uma circunstância estranha. Sabendo que um outro colega seu, o desenhista Eduardo Barbosa, estava dando uma entrevista para a revista Playboy se dizendo o verdadeiro Zéfiro, Alcides decidiu "se entregar" e desmascarar a farsa. Na realidade, Eduardo Barbosa desenhou vários catecismos, mas ele não era Zéfiro. Essa revelação coincidiu com a I Bienal de Quadrinhos, em novembro de 1991, quando foi realizada uma homenagem a Alcides e sua identidade veio a público. Nesse pouco tempo de vida que lhe restava, Alcides teve a justa homenagem e reconhecimento por seu trabalho. Alcides morreu em 3 de julho de 1992, de derrame, um dia após de ter sido homenageado com banda de música e tudo numa solenidade onde recebeu um troféu HQ-MIX.
Outro autor que se destacou nesse período assinava Chang, mas não era tão conhecido mas nem é mais lembrado. Muitos desenhistas de quadrinhos profissionais também disfarçaram seus traços e produziram catecismos, publicados no mesmo esquema por outras "editoras" clandestinas. Os melhores eram os produzidos por Carlos Zéfiro que, apesar das deficiências do traço, escrevi as melhores histórias. A história de um catecismo padrão geralmente começava, nas primeiras páginas, o personagem conhecendo uma moça, seduzindo-a mais ou menos até a página 15, e daí até a página 32 era sacanagem pura.
O curioso é que Zéfiro não era desenhista, mas sabia manipular os materiais de desenho, e era capaz de fazer uma história de quadrinhos decalcando, em papel vegetal , posições de revistas de fotonovelas e de revistas publicadas pela Editormex (onde baseou o seu estilo) e fotos eróticas fornecidas por Hélio. Por isso, a irregularidade entre os desenhos de uma mesma história é muito grande, pois quando não havia referências para decalcar os desenhos ficavam toscos. Ainda asim, comunicavam muito e eram uma verdadeira febre entre adolescentes e adultos daquela época.
CLANDESTINO
"De fato, vendido de modo clandestino, produzido de forma artesanal, desenhado com técnicas bisonhas e relatando histórias que tinham (e ainda têm) um enorme apelo, os livrinhos de Zéfiro faziam a ponte perfeita entre as conversas na roda de amigos e aquilo que se suspeitava que ocorria nas alcovas. Quer dizer: os livros de sacanagem apresentavam um pouco essa possibilidade de ter o sexo e a sexualidade como algo destacado e individualizado, alguma coisa que poderia ser vista quando se desejava e que era guardada numa gaveta e não na igreja, prostíbulo ou quarto de dormir como era o caso do sexo da vida real. Neste sentido, é também claro que parte do sucesso desta literatura estava precisamente no seu desenho igualmente ambíguo que, aliado a uma reprodução gráfica deficiente, criava uma impressão estranha, exótica. Uma impressão, enfim, de desfamiliarização que era precisamente o máximo que esse gênero de narrativa poderia esperar!", escreveu Roberto DaMatta em “Para uma teoria da sacanagem: uma reflexão sobre a obra de Carlos Zéfiro” (A Arte sacana de Carlos Zéfiro. Marco Zero, 1983).
"Um importante elemento nessas narrativas é seu traço simples, descritivo, limitado a um mínimo de recursos plásticos, como se estivesse restrito a apresentar o referente (acontecimentos eróticos) de forma imediata. Em vez de índice de erotismo ingênuo, parece-me que essa simplicidade é uma forma de integrar o leitor no universo desenhado, onde ele se localiza como personagem de aventuras similares ou Autor de desenhos com mesmo teor. Esse componente erótico se fez de forma direta e rápida, que não dispensou rituais de desnudamento, exibição e contemplação (o último passo exigia a inclusão do leitor). Seu universo masculino de leitura não dispensou uma cuidadosa ênfase em aspectos didáticos da sexualidade - como iniciar uma abordagem, quais as etapas de excitação a serem percorridas - visando ao prazer masculino, sem desprezar minimamente seu correspondente feminino" informou Marcos Antonio da Silva no artigo “Outros homens e mulheres” (Prazer e poder do amigo da onça: 1943-1962. Paz e Terra, 1989)
Carlos Zéfiro nunca foi esquecido e volta e meia seu nome vem à tona. Uma lona cultural em Anchieta (subúrbio do Rio de Janeiro/RJ) tem o seu nome. A cantora Marisa Monte, em seu CD Barulhinho Bom, usou desenhos de Zéfiro para ilustrar a capa e o folder do CD. As histórias de Zéfiro têm sido reeditadas em edições fac-similares no mesmo formato original. Na Internet é possível se encontrar muitas histórias de Zéfiro compiladas no site www.carloszefiro.com, mantido sem fins lucrativos por um fã.
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