22 agosto 2017

Mulheres de Corto Maltese

As mulheres tiveram um papel importante na infância de Hugo Pratt na cidade de Veneza. “As mulheres da minha família conheciam montes de histórias, de lendas, de mitos, encontavam-nos à maneira delas. Tudo isso se misturava na minha cabeça, mas eu orientava-me sem dificuldade nesse mundo de fábulas. Esses anos da infância em Veneza foram essenciais na minha formação. Desde a mais tenra idade, fui habituado a evoluir por entre todas as espécies de crenças, de culturas, de mitologias, e essas questões nunca deixaram de me apaixonar”, revelou Pratt a Dominique Petitfaux no livro O Desejo de ser Inútil (Relógio D´Água Editores, 2005, pagina 32).


Seus quadrinhos estão cheios de mulheres de todos os tipos, das duquesas às prostitutas, mas todas têm pontos comuns: são geralmente belas, aventureiras e perigosas. E sobre as mulheres ele explicou. “Nunca fui fascinado por uma mulher por razões sociais. Gostei de mulheres de todas as condições sociais, de todas as idades, de todas as cores de pele. Dei-me com todos os tipos de mulheres, mas nunca fui particularmente atraído pelo exotismo, esse racismo às avessas; a maioria das mulheres que conheci era de tipo europeu, e com uma mentalidade não diversa da minha (...) Nunca fui machista com ela, nunca pensei que o homem era por definição superior, nem sequer no plano físico, pois as mulheres vivem em geral mais tempo (...) As mulheres da minha  vida nunca prejudicaram a minha obra, pelo contrário, diria até que foram complementares. Ajudaram-me a viver, logo, a trabalhar, e enriqueceram a minha vida: a minha experiência das mulheres encontra-se nas minhas histórias” (paginas 258, 259 e 261).


O que o guiou na sua vida, pergunta Dominique. E ele responde: “A curiosidade intelectual. Eu tenho curiosidade de conhecer o amanhã. A minha vida está cheia de surpresas e de prazeres. As minhas pesquisas em diversos domínios abriam-se ao mundo e a mim mesmo” (pagina 288).

E para encerrar, ele revelou que encontrou a sua ilha do tesouro. “Achei-a no meu mundo interior, nos meus encontros, no meu trabalho. Passara minha vida com um mundo imaginário foi a minha ilha do tesouro (...) quando penso naqueles que me acusavam de ser inútil, e no que eles julgavam ser útil, então, garante eles, não tenho apenas o prazer de ser inútil, mas também o desejo de ser inútil”. A entrevista foi realizada entre janeiro de 1990 a março de 1991.


Seu personagem, Corto Maltese que há 50 anos espalhou o seu charme e o seu mistério. De Veneza à Irlanda, da China ao Saara, passando por Hollywood, Petrogrado, Etiópia, etc, etc, etc. Como frisou Michel Pierre, “Corto Maltese é sem dúvida um dos heróis mais sedutores da banda desenhada. E sem mulheres faltar-lhe-ia realmente uma razão de existir”. Pandora, Soledad, Banshee, Morgana, Madame Java, Boca Dourada, Xangai-Li são apenas algumas das razões de existir de Corto Maltese.
(Este ano, em homenagem aos 50 anos de nascimento de Corto Maltese, Bruno Enna e Giorgio Cavazzano produziram uma historia em quadrinhos de aventura do Mickey Maltese em duas partes que a Editora Abril publicou)


Com poderosos traços e simbolismo, Corto é retratado junto às mulheres de uma forma que as dignifica. As mulheres que se cruzam com Corto Maltese e que lhe ficam no coração são ricas em personalidade, emoções, sensualidade e são de fato diversas no seu caráter e origens. Pratt explora, de novo com talento, a diversidade que a beleza feminina étnica possui e retrata as mulheres de varias raças e origens de forma real e inconfundível.


21 agosto 2017

Hugo Pratt na Bahia

No início dos anos 2000 a professora de teatro aposentada, Lúcia Maria Dias dos Santos me procurou para falar sobre seu encontro com o quadrinista italiano Hugo Pratt. Falou que muitos jornalistas estiveram, na época, em  sua casa, em busca da história desse encontro, mas ela nunca revelou. Aproveitei para apresentá-la aos jornalistas do Correio da Bahia, jornal onde trabalhei por quase 10 anos. Ao jornalista Marcos Vita, Lúcia Di Sanctis (sugestão do nome dado por Pratt que ela adotou) contou o curto romance – mas intenso entre novembro a dezembro de 1965 com o italiano – foi publicado na edição de 08 de fevereiro de 2001, intitulado “Romance em Quadrinhos: professora diz ter vivido romance com Hugo Pratt, que esteve na Bahia nos anos 60”.


“Em 1965, Lúcia Di Sanctis tinha apenas 18 anos. O quadrinista Hugo Pratt, 38. ´Bonito, simpático, falador e amante da cultura negra, ele logo me conquistou. Um outro traço curioso é que só vestia roupas décor caqui. Passamos um mês de romance´, diz a professora baiana (...) Ela descobriu uma personagem com seu sobrenome e características físicas bastante semelhantes às suas numa HQ do italiano. Na ficção, a professora baiana seria a personagem Morgana `Dias dos Santos` Bantam. Morgana também é baiana e está sendo procurada pelo meio irmão, Tristan Bantam, de Londres. Os três episódio chama-se O Segredo de Tristan Bantan, Encontro na Bahia e Samba com tiro certeiro.


Em Sob o signo de Capricórnio, Tristan Bantam é levado à Bahia já por meio de um encantamento sobrenatural: ninguém menos que o orixá Ogum Ferreiro o convoca  até sua meia-irmã (negra e brasileira) Morgana, iniciada nas práticas do oculto junto com a “preta velha” e líder espiritual Boca Dourada.

“A professora apresentou duas fotos dela em 1965. Os traços angulosos do rosto e o cabelo curto da época a fazem muito parecida com o desenho da personagem de Pratt”. Era a primeira vez que Lucia revelava a história a um jornal.

Em sua passagem pelo Brasil Hugo Pratt revelou a Dominique Petitfaux no livro de entrevista com ele em O Desejo de ser Inútil (Relógio D´Água Editores, 2005): “Nos anos 1962-1966, o Brasil foi um país que contou muito para mim. Tinha ido lá uma primeira vez a partir da Argentina, em 1957, depois, em 1962,no caminho de Buenos Aires para Lisboa, durante uma longa escala no Rio, eu tinha circulado no Brasil (...) Foi por intermédio de Raimundo Lisboa que em Salvador da Bahia travei conhecimento com a cartomante Bouche Dorée, que me inspirou para uma das personagens de Corto Maltese, e com as irmãs Dos Santos, umas negras soberbas versadas em magia. As Dos Santos tornaram-se a minha família da Baía, e quando passo pelo Brasil, não deixo de as visitar. Com uma das meninas Dos Santos, uma mãe-de-santo, tive mesmo, em 1965, uma filha, uma bela mestiça, Victoriana Aureliana Gloriana.



Quando a reconheci oficialmente como minha filha, reconheci ao mesmo tempo os filhos ilegítimos das quatro irmãs, dando aos rapazes nomes de presidentes dos Estados Unidos. E eis como, em Salvador da Bahia, se pode hoje encontrar um Lincoln Pratt, um Wilson Pratt ou um Washington Pratt” (páginas 123 e 124).

Lucia nega que seja a mãe e diz desconhecer a existência da garota. Não existe registro do nome nos cartórios de Salvador. Mas como todos os aficionados por quadrinhos sabem, o espírito aventureiro de Pratt mistura muito a realidade e a ficção. Na entrevista para o livro ele confirmou que teve apenas seis filhos, três rapazes e três meninas. Na Bahia, na época, houve um atentado político contra um general e Pratt tornou-se suspeito, pois encontravam uma arma entre seus documentos. Depois de preso e explicado que era jornalista italiano do Corriere della Sera, foi solto. À noite, ao visitar o bordel local, encontrou-se com os policiais que o prenderam e tornaram-se amigos. Uma aventura e tanto... Para Hugo, sua filha “Victoriana vive no Brasil, é bailarina” (pagina 178).



17 agosto 2017

Grandes reinvenções de Elvis Presley

O que Elvis Presley realizou e conquistou de 1954 a 1977 são marcas do século 20 que se perpetuarão para sempre na cultura mundial. O cantor passou por algumas grandes reinvenções:

1953 – Elvis entrou na Sun Records, em Memphis, para gravar That´s When Your Heartaches Begin e My Happiness. Ali, Elvis se transformou de um motorista de caminhão de uma empresa de eletricidade no primeiro grande ícone da cultura pop do século 20.

1956 – Elvis era o grande catalisador de música jovem, um estopim que geraria uma explosão incontrolável.

1958 – Ele entrou no exército e retorna dois anos mais tarde.

1960 – De rebelde, revolucionário e transformador, o cantor passa a ser um bem comportado jovem adulto astro de filmes.

1962 – Good Luck Charm, primeiro sucesso número 1 nos EUA.

1968 – Show televisivo que foi encerrado com a música If I Can Dream, canção de protesto que pedia a paz entre os homens. Elvis jurou para si mesmo jamais gravar uma música na qual não acreditava.


1969 – Elvis canta nos palcos de Las Vegas, acidade dos cassinos.

         - Suspicious Minds atingia o primeiro lugar na Billboard com mais de 1,2 milhão de cópias vendido.

1969 – No International Hotel, em Vegas, vestido com uma roupa que lembrava um quimono de caratê, Presley subiu ao palco para uma apresentação como nunca havia feito. Ele mudou seu jeito de cantar, sua postura de palco e a maneira de encarar o público. Era um novo artista quem estava ali, engraçado, sexy, bufão, encantador, energético, que sabia rir de si mesmo e que espalhava eletricidade pelo ar.

1970 - Grava o documentário chamado That's the Way It Is (Elvis É Assim), que mostrava a grandiosidade, a energia e a empolgação do astro nos shows em Las Vegas.

1972 - Show no Madison Square Garden, templo da Nova York cosmopolita, um teste de fogo para o cantor que nunca pertenceu a nenhum clubinho de artistas, nunca fez parte de uma "intelligentsia" norte-americana e que, muitas vezes, era considerado um caipirão ultrapassado.

1973 - Aloha from Hawaii, o primeiro show ao vivo transmitido via satélite para mais de 1 bilhão de pessoas. Foi um novo auge alcançado pelo artista.


1977 - Decadência física, aliada a momentos psicológicos instáveis, acabaria levando Presley à morte em 16 de agosto. Morte que lhe garantiria a permanência no imaginário como uma lenda eterna.

16 agosto 2017

40 anos sem Elvis Presley

Há 40 anos morria o ídolo da juventude, Elvis Presley (16 de agosto). A explosão comercial do mito não pára – CDs, vídeos, chaves e outros apretechos serão novamente lançados para realimentar o mito e confirmar sua posição como uma das figuras arquetípicas do século XX.


Ele foi o primeiro autêntico astro do rock and roll. Depois dele, o que se seguiu foi história. Há quem insista em argumentar que Bo Diddley, Little Richard ou Chuck Berry foram os caras que realmente colocaram a coisa para rolar. Mesmo isso sendo musicalmente verdadeiro, Elvis foi o primeiro a explodir na mídia como o precursor de um gênero musical que, nas últimas décadas tem sofrido as mais diversas variações, sem perder seus predicados básicos.

A história de Elvis era o sonho de todo garoto americano de classe media nos anos 1950 criado no embalo das big bands e das vozes de Sinatra e Bing Crosby.

Ao lado de James Dean, Elvis assumiu importância iconográfica como símbolo da cultura jovem no fim da década de 1950. Enquanto Bob Dylan e os Beatles estavam mudando as feições do pop em meados dos anos 1960, tornando-o musical e textualmente mais sofisticado, Presley estava ocupado fazendo filmes de segunda categoria. Sua música foi ficando para trás. Talvez ele percebesse isso, pois sua mercadoria atingiu muito mais o estômago que o cérebro. Por sete anos, Presley foi o mais apto de todos na música popular, perfeitamente adaptada a sua época.


Números

1,5 bilhão de pessoas assistira pela TV ao espetáculo realizado em 1973, primeiro show transmitido via satélite.

1 bilhão de discos vendidos até o ano de 2013, recorde mundial para um artista solo.

85 mil é o número estimado de imitadores de Elvis no  mundo e ele tem 625 fã clubes em 45 países.




16 fevereiro 2017

1967/2017: Aconteceu há 50 anos (04)



O ano de 1967 foi importantíssimo para as histórias em quadrinhos. Nesse período surgiu o escândalo visual da Saga de Xam, o psicodelismo de Pravda, e as aventuras de Corto Maltese.

Saga de Xam, obra em quadrinhos desenhada por Nicolas Devil e editada por Eric Losfeld em 1967, foi destinada a um público adulto, que misturava erotismo e ficção científica. Conta a viagem de Saga, a bela jovem de pele azul vinda do Planeta Xam para salvar um planeta Terra, que não merece ser salvo, mas foi evoluindo, de forma orgânica, para se transformar num manifesto coectivo, estético e político, que prenuncia o Maio de 68 e onde encontramos como figurantes no último capítulo Barbarella, Bob Dylan, Allan Gingsberg, Zappa Kalfon, Julian Beck, Lovecraft, Valérie Lagrange, John Lennon, Cassius Clay, os Hell's Angels e os Rolling Stones, entre muitos outros.

Ainda na França, Guy Pellaert lança Pravda, La Survireuse. Reforma ao máximo os seus potenciais eróticos: mini-saia pela cintura, coxas enormes e grandes botas pretas. Foi inspirada na cantora Françoise Hardy. A heroína circula no seu bolide de duas rodas, chefiando uma gang feminina, precursora das radicais Woman´s Lib. A personagem é da safra de heroínas eróticas europeias que surgiram no rastro de “Barbarella”. Mas “Pravda” bebia nas águas do psicodélico e da chamada “pop art”. Publicada originalmente em capítulos, na revista francesa Hara-Kiri, a protagonista é líder de uma gangue de motoqueiras que percorre os Estados Unidos quase nua, vestindo vistosas botas pretas e com fisionomia calcada na cantora Françoise Hardy.
 
Já o desenhista Georges Pichard lança nessa época Blanche Epiphanie, uma heroína romântica ingênua. Com um humilde emprego de entregadora de cheques, ela passava as noites remendando os trapos que de dia eram rasgados pelos clientes do banco, que sempre a assediavam. Mas a moça tinha um defensor mascarado, o herói Défendar, identidade secreta de um estudante de ciências, vizinho do quarto da moça. A história foi publicada com muito sucesso pela V Magazine e depois dela vieram outras heroínas criadas por Pichard, a maioria loiras, rechonchudas e com sardas no rosto.

Nos Estados Unidos, Gilbert Sheldon, artista underground bastante representativo, publica Freak Brothers: história de três maconheiros ripongas, que dividem o mesmo
apartamento: Fat Freddy é um gordo com apetite colossal; Phineas, um tímido bicho-grilo, e o último, Freewhelin, um radical de esquerda que odeia o "sistema" e a política. Situações engraçadíssimas baseadas na tríade sexo, drogas e rock-and-roll.

Na Itália, a revista Sgt. Kirk publica pela primeira vez o marinheiro Corto Maltese, criação de Hugo Pratt, cujos álbuns inauguram o chamado "romance em quadrinhos". Corto Maltese é a grande criação de Hugo Pratt. Este marinheiro correu o planeta em aventuras estranhas, sempre acompanhado pela magia e pelo mistério de grandes enigmas da humanidade, misturando factos reais com uma vertente fantástica enorme. É muito natural encontrar Corto sobre a influência de cogumelos, viajando no mundo dos sonhos, tocando por vezes no mundo real.


Ainda em 1967, em São Francisco que surgiam os yuppies ou hippies politizados, nome derivado do YIP (Youth International Party - Partido Internacional da Juventude). Jerry Rubin, ex-líder estudantil de Berkeley, proclamava: “Os yuppies são revolucionários. Misturamos a política da Nova Esquerda com o estilo de vida psicodélico. Nossa maneira de viver, nossa própria existência é a revolução”. Consumava-se, assim, segundo alguns, a mistura da revolução cultural com a revolução política.

O jornalista Antônio Calado publicou em 1967 o romance “Quarup”, onde descreve o intelectual da cidade experimentando a realidade da selva. Seus personagens vão viver no Xingu e, no caminho, deparam-se com a repressão no Nordeste nos primeiros anos da Revolução de 1964. E no carnaval de rua de Salvador, em 1967, a presença marcante do bloco Apaches do Tororó, nova agremiação de jovens da comunidade negro mestiça, influenciados pelos filmes de caubói norte americanos. Polêmico, agressivo, pioneiro no uso de música própria e de um tema para cada carnaval, este bloco torna-se um dos mais importantes da década seguinte, chegando a contar cinco mil participantes.


15 fevereiro 2017

1967/2017: Aconteceu há 50 anos (03)



Um grande impacto de rajada de tiros e discursos numa alegoria do caos está presente no filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Reflexão amarga sobre a derrota da esquerda, seu fluxo narrativo obedece aos delírios do protagonista (um jornalista de classe média envolvido com um político populista), ferido mortalmente. Na enxurrada de recordações do protagonista podem-se ver as contradições de um país de terceiro mundo e da pequena burguesia urbana, dividida entre o sonho revolucionário romântico e os desejos mesquinhos da realidade.

A trama do filme de Glauber Rocha, Terra em Transe é uma alegoria política, um texto que faz uso de elementos históricos muito próprios do Brasil e da América Latina como um todo, especialmente porque não se nega a mostrar as diferenças sociais, a larga oferta de posturas político-ideológicas, o embate quase infantil entre povo e poder, o uso da força militar ou do assassinato político. Através de todos esses fatos observados no Terceiro Mundo, Glauber Rocha nos mostra a crônica de uma ascensão ao poder e sua subsequente derrocada.

A política é um negócio sujo em Eldorado. O país fictício tem governantes corruptos no poder, partidários e aliados assassinos, fracos e extremistas — à direita e à esquerda — o que não facilita em nada a vida do povo, que não sabe para qual lado seguir; é facilmente enganado por palavras de consolo e de “estou anotando tudo, tudinho!” e festeja a chegada de um líder populista como se esta fosse a resposta para todos os problemas imediatos pelos quais passam: a falta de terra, a falta de
emprego, a falta de comida.

Em A Chinesa, num certo momento, Anne Wiazemski (a personagem universitária que quer destruir as universidades) explica a Juliet Berto (a camponesa que não entende nada de marxismo-leninismo) qual a importância da política na ação de um grupo revolucionário. Ao que a outra pergunta: "quer dizer então que a França de 1967 se assemelha a esses pratos sujos?" Em uma ocasião seguinte, Wiazemski explica a Guillaume (ator revolucionário brecthiano, Jean-Pierre Léaud) o que é lutar em duas frentes: lutar política e esteticamente.

Em A Chinesa, Godard nos dá várias definições de sua profissão de fé. Para além de todas considerações de previsão e análise sociológica a respeito desse filme, A Chinesa é, antes de qualquer coisa, o filme em que Godard mais claramente expõe o seu projeto e sua ideia do que seja fazer cinema.


Catherine Deneuve começa sua carreira como heroína ingênua do cinema francês. Aos poucos, vai se transformando numa deusa loira sofisticada, uma mulher independente que escolhe cada filme que vai fazer. 

Em “A Bela da Tarde” (1967) de Luis Buñuel ela faz o papel de pura e perversa, até fundir num novo modelo de mulher que, desde então, sempre acompanharia a atriz.
 
Libertária do ponto de vista sexual, provocativa em política, conservadora na religião. Pasolini queria captar o discurso do povo e não fazer um discurso sobre o povo. 

Seus filmes mostram a disposição de encontrar essa força primitiva que viria dos estratos populares, livre de contaminação da cultura de elite. Forças primais, as forças da saúde – o sexo, a fome, o riso, o prazer em todas as suas formas, mesmo as mais escatológicas. Contra o racionalismo pragmático, a magia e a força do irracional e do mito em Édipo-Rei (1967)

A peça "O Rei da Vela" é encenada no Teatro Oficina, em São Paulo, e revoluciona o teatro brasileiro. O diretor José Celso Martinez Correa resgata o vigor e a
ousadia do texto de Oswald de Andrade, que permanecia atual mesmo tendo sido escrito na primeira metade da década de 1930. O experimentalismo do espetáculo mesclava linguagem de circo e de chanchada e inaugurou o chamado teatro de agressão. Essa marca da obra atraiu e chocou as plateias de classe média, que durante mais de um ano lotaram o Oficina.

Ainda em 1967 um livro quebrou os cânones, valorizando a macrovisão histórica e apontando tendências universais: John Kenneth Galbraith lançou O Novo Estado Industrial alertando para uma característica crucial do capitalismo contemporâneo, a separação entre propriedade e gestão. Ele redescobriu e denunciou, as armadilhas do poder coletivo e os fantasmas da organização.






14 fevereiro 2017

1967/2017: Aconteceu há 50 anos (02)



A revolução estava no ar e os Beatles irradiam luz. 1967 era o ano do primeiro disco dos Doors e a experiência radical do Velvet Underground, mas nada comparável no lançamento de Sgt Pepper´s dos Beatles. Introduziu referências da música erudita, sonoridades indianas e uma dissonância vanguardista que influenciou todo mundo.

Gravado na véspera do "verão do amor", no início da era hippie, "Sgt. Pepper" rompeu os limites da música pop e conseguiu fazer com que um disco deixasse de ser uma simples reunião de canções para se transformar em uma obra de arte com identidade própria.

O disco introduziu referências da música erudita, sonoridades indianas e uma dissonância vanguardista influenciando todo mundo. Citado como o maior disco de rock de todos os tempos, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, inaugurava o experimentalismo eletrônico na música popular contemporânea, sendo a primeira vez que músicos do rock aproveitavam todos os recursos e possibilidades, tanto da gravação feita em estúdio quanto da eletrônica. Nesse LP, onde o popular e o erudito se encontravam, instrumentos se misturavam a estranhos sons e a música incorporava cores e gestos. Foi o primeiro “álbum conceitual”.

Foi Paul McCartney quem propôs a seus companheiros que se "transformassem em outro grupo" e sugeriu o nome de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta, em tradução livre), inspirado nas bandas que surgiam nos Estados Unidos naquela época. Gravaram a faixa título do álbum, uma canção que começava com o ambiente de um concerto - instrumentos sendo afinados, o barulho do público - e que emendava com "With a little help from my friends", a segunda faixa do disco. Esta foi outra novidade de "Sgt. Pepper": as canções se sucediam de forma contínua, sem interrupções.
 
A discoteca tomou o mundo em 1977, na esteira do filme Os Embalos de Sábado à Noite. Mas o gênero já existia desde o início dos anos 1970. O Bee Gees estourou com “Stayin´Aline”

No Brasil uma injeção de criatividade no poético da palavra cantada surgia com “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso. Ele subiu ao palco do 3º Festival de MPB, de cabelos encaracolado e gola rolê, trazendo à retaguarda as guitarras
elétricas de um grupo argentino, Beat Boys cantando Alegria, Alegria, uma injeção de criatividade na poética da palavra cantada brasileira. A letra “nouvelle vague”, feita de estilhaços de imagens para falar de um Brasil fragmentado, moderno e mais jovem. Numa entrevista de quem era o mundo de agora, Cae respondeu: “O mundo realmente é de Batman”, provocou, causando urticálias na esquerda nacionalista.

Na letra feita de estilhaços de imagens para falar de um Brasil fragmentado, moderno e jovem. O mundo das bancas de revista, da comunicação rápida. O ícone vocal da América, Frank Sinatra, curvou-se ao gênio de Tom Jobim e dividiu um disco com ele.

Garcia Márquez e seu reino visionário de Macondo lança a obra Cem Anos de Solidão. Em Macondo, os mortos envelhecem à vista dos vivos e os anjos chegam, sempre, em dezembro. Entretanto, García Márquez nunca aceitou que suas narrativas fossem rotuladas como fantasia. Talvez porque isso exilasse Macondo num outro mundo, que nem a solidão ou a liberdade pudessem alcançar. Cem anos de solidão é a mais pura história do povo latino-americano. Mas ultrapassa o momento e expõe a alma dessa história - ou como é vivenciada.

Aqui o leitor acompanhará as vicissitudes da numerosa descendência da família Buendía ao longo de várias gerações. Todos em luta contra uma realidade truculenta, excessiva, sempre à beira da destruição total. Todos com as paixões à flor da pele. E o "realismo mágico" de García Márquez não dilui a matéria de que trata --no caso, a história brutal e às vezes inacreditável dos países latino-americanos. Pelo contrário: só a torna mais viva.